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Sobre o assédio e a discriminação nas organizações

Mulher sentada à mesa do escritório, com expressão de cansaço e a mão no rosto, enquanto dois colegas conversam ao fundo olhando para ela

Certa vez, numa das empresas em que trabalhei, os gestores pretendiam criar um “Formulário para Registro de Agressões”. Desta forma, essas situações - que estavam se tornando recorrentes nas reuniões - poderiam ser tratadas formalmente e resolvidas através de mais um processo burocrático de gestão. O que eles não percebiam é que essa forma de tentar “resolver” o problema assumia as agressões como algo natural no ambiente de trabalho, e não como um efeito colateral de um modelo de gestão tóxico.

Vejo um movimento semelhante acontecendo em relação aos casos de assédio e discriminação nas organizações, problema que hoje já afeta cerca de 25% dos trabalhadores do mundo, de acordo com a pesquisa “Experiences of violence and harassment at work: A global first survey” da ILO-Lloyd’s Register Foundation-Gallup.

Criar um canal de comunicação seguro para denúncias (como um formulário anônimo) ou um serviço de apoio (como uma ouvidoria ou atendimento psicológico) para tentar remediar o problema de assédio e discriminação no trabalho é o mínimo que uma organização precisa fazer para demonstrar interesse e empatia pelo sofrimento das pessoas.

Criar programas de orientação e esclarecimentos sobre esses temas, bem como prover treinamentos e capacitações sobre linguagem neutra, comunicação não violenta, inteligência emocional e conduta moral e ética no trabalho, colaboram para elevar a conscientização e para ensinar novas técnicas e ferramentas para que as pessoas enfrentem melhor ou evitem situações relacionadas a esses temas.

Mas isso não é suficiente, é só o ponto de partida.

É preciso questionar quais são as condições preexistentes na organização que estimulam e reforçam comportamentos de assédio e discriminação no trabalho. Por exemplo:

  1. A falta de transparência de informações financeiras suporta a discriminação e as diferenças salariais entre homens e mulheres.
  2. Hierarquias prefixadas, baseadas em interesses e poder, criam diversas situações sociais onde o assédio (de todos os tipos) vira instrumento de gestão, negociação e chantagem. Esse mesmo tipo de hierarquia cria as estruturas que são a base para a discriminação no trabalho.
  3. Práticas de gestão que relacionam diretamente chefes e subordinados (como feedback one-on-one, avaliação de desempenho individual, promoções e aumentos salariais) também podem ser estímulos estruturais para a discriminação e o assédio.
  4. A forma como a organização divulga as suas vagas e realiza seus processos seletivos pode prejudicar as candidaturas e as contratações de mulheres e de pessoas que ampliariam a diversidade humana, mantendo inalteradas as estruturas que favorecem a discriminação e o assédio.

Pensando desta maneira, você poderia levar a seguinte reflexão para as pessoas da sua empresa: Como o nosso modelo de gestão, a nossa estrutura organizacional, as nossas práticas de gestão de pessoas, as nossas regras e processos de trabalho estimulam ou desencorajam situações de discriminação e assédio?

Talvez essa seja a pergunta mais importante para tentar resolver verdadeiramente esse grande problema nas organizações.

Publicado originalmente no LinkedIn em 2 de agosto de 2023

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